Internet: mais ódio que empatia

 É comum ouvirmos sobre crianças que cresceram em determinados contextos sociais violentos, abusivos ou mesmo omissos e que acabaram carregando sequelas destas relações por toda a vida.

Diante disso, por que não acreditar que os ambientes virtuais são tão (ou mais?) danosos que um lar destroçado pelos vícios inerentes a alguns seres humanos com os quais se convive na infância e juventude; questiono, portanto, a dimensão que a isso damos e quais os efeitos que se perpetuarão entre esses jovens.

Fazendo uma pesquisa sobre o assunto, passei os últimos seis meses participando de grupos de extrema-direita e extrema-esquerda nas redes sociais. Confessei a pessoas mais próximas o mal que isso me fez. Não falo apenas do conteúdo dos grupos, que eram em sua maioria fechados, mas sim das relações humanas estabelecidas no mundo virtual. Elas são nocivas em sua maioria no que tange à saúde emocional das pessoas.

Não se trata de dizer que as redes sociais fazem mal, assim como existem lares destroçados, também há aqueles em que existe afeto, empatia e incentivo. Por isso, não digo que o mal está nas redes sociais, na Internet. O mal está onde sempre esteve: no ser humano.

Não, não se trata de pessimismo. É apenas uma constatação feita pela ONG Safernet que, após uma avaliação de comentários postados na Internet, chegou à porcentagem de 84% de discursos odiosos publicados na rede mundial de computadores.

Tão pouco pretendo ficar dando exemplos de casos lidos, discutidos e questionados nesses grupos dos quais participei. Embora eu tenha plena convicção que chamaria a atenção fazê-lo nesse ambiente, mas é exatamente essa lógica (querer chamar a atenção na rede) que tem gerado parte de todo discurso de ódio no mundo virtual. Há grupos que se unem com esse objetivo: chamar a atenção declarando ódio contra grupos sociais historicamente oprimidos: negros, nordestinos, homossexuais, mulheres, entre outros.

As consequências desses discursos são muitas, e ainda que não existam estudos que consigam atrelar o aumento de 10% nos casos de suicídio dos jovens nos últimos anos à Internet, não se pode desconsiderar que se é fato que o suicida está gritando por socorro, a rede é ao mesmo tempo um ambiente propício para pedir ajudar, assim como o local para dizer: Olhem para mim pela última vez!

O ambiente virtual tóxico, assim como o físico, é opressor. É nítido o sadismo de alguns participantes, potencializado pelo incentivo coletivo de outros sádicos que encontraram na rede a possibilidade de aproximação com seus pares.

Vi uma entrevista da Ana Beatriz Barbosa, estudiosa da psicopatia, dizendo que é natural psicopatas se aproximarem no mundo físico pelos gostos em comum. No virtual, eles proliferam e arrastam jovens sem estrutura emocional para o mundo deles. Um mundo de intolerância e discriminação. Mundo esse que incentiva a violência e diverte-se com sofrimentos de todos os tipos.

Quanto aos “hates” nem todos são psicopatas, a maioria se esconde atrás de uma tela, incentiva a violência enquanto toma um suco detox e seus filhos assistem ao Discovery Kids no sofá ao lado. Não bastasse isso tudo, o mais assustador é que muitos desses grupos apresentam-se como defensores da família, da moral e da tradição.

 

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Quando os anjos choram

Quando os anjos choram

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— Estou sempre pensando que lá  por detrás dele acontecem outras coisas, que o morro está tapando de mim, e que eu nunca hei de  poder  ver…
 (J. G.R  – Campo Geral)

 A rua de nossa casa tinha cheiro de pão quente, guias pintadas a cal, uma sim, outra não, e, já escurecendo, com a copa das árvores cobertas pela névoa, sabíamos que era hora de entrar pra casa quando ouvíamos uma sinfonia de vozes de mães a gritar pelos moleques da rua. Para a prefeitura, aquilo não era uma rua, apenas um beco sem saída (fechado por um casarão desabitado de dois andares, onde histórias desencontradas davam conta de um homem que ali tinha morrido ou se matado)  e que constava nos registros municipais como Beco da Soledade.

Para mim o mundo girava em torno daquele quarteirão de pouco mais de vinte casas, e tudo o que me era caro estava naquele lugar: a sombra da aroeira no quintal de casa e debaixo dela a cadeira de balanço, feita de vime, de meu avô, seu Álvaro, e nas pernas dele, um colo, onde dormi várias vezes, mas que aos seis anos, a vergonha de admitir aos amiguinhos da rua, me obrigava a fazer isso apenas escondido; os bolinhos de chuva de Dona Cândida, minha avó, dos cafunés em meu cabelo que eu dizia não gostar só pra fazer charme, ou quando vó espiava pela janela com olhos  proféticos e dizia, Vai chover. E não é que chovia?, o dinheirinho que ela me dava, e pedia segredo,Não conte a ela, viu?, este ela, era minha mãe, chamava-se Maria, brava, protetora, solitária – mesmo quando cercada de gente, mas fazia um bolo de fubá cremoso que a deixava na condição de  melhor doceira do bairro. Até mesmo minha irmã, Clarinha, me era importante naquele universo só meu, ainda que com suas manias de menina mimada, quando implicava com minha amizade com o Mingau, Mamãe o Neto tá brincando com o babuíno, até o timbre de voz dela era igual ao da mamãe. Eu hoje compreendo que não era por maldade, a pobre não sabia diferenciar albino de babuíno.

Apesar disso, Mingau era meu melhor amigo, o nome dele era Jessé, e como quando achávamos que alguém tinha nome de velho dávamos ao sujeito um apelido, o dele ficou assim. Alguns gostavam dos apelidos, a maioria não. Mingau não se importava.  Era um menino sensível, filho único de família simples, os pais se casaram já velhos, com quase trinta, então sua mãe não pôde ter outros. Moravam numa casa ainda por terminar, por causa disso é que aos sábados e domingos de manhã não brincávamos, ele ajudava o pai a aumentar uma fileira de tijolos do segundo andar. Vai ser meu quarto, dizia orgulhoso  apontando para um canto onde não havia nada, apenas um monte de areia, mas ele enxergava o futuro, talvez por isso se apegasse tanto a mim. Às vezes, do nada, ele punha os olhos fixos a me olhar. O que é Mingau? Nada, é que eu estou me vendo em seus olhos. Ele tinha umas manias estranhas, concordo, quem não as tem? Éramos bons amigos, queimávamos formigas com a lupa do meu avô, amarrávamos bombinhas nos rabos dos gatos, apertávamos campainhas e nos escondíamos, ríamos até a barriga doer dos cachorros grudados na rua, até que a mãe de alguém via, e uma falava para  outra mãe e outra e outra, e logo, a minha vinha correndo me levar pra casa. O Mingau dava tchau e ia sozinho com os braços caídos, chutando pedregulhos, depois pulava o muro e entrava em sua casa. No outro dia, fazíamos tudo de novo.

 

O que é isso branco na sua cara?

Protetor.

E pra que serve?

Não sei, minha mãe diz que é pra proteger.

É por isso que você é assim branco?

 Não, eu sou assim por causa do gene.

Entendi…quer entrar no casarão?

Não, melhor não, podem pegar a gente.

Quem, se ninguém vai lá?

Seu avô corta o mato, e sua avó varre a calçada, não lembra?

É, deixa pra lá, então.

 

No final daquele dia, depois de um barulho, ficou tudo escuro e a tv desligou. Mamãe tomou rumo da porta, eu quis acompanhar, Fique aí – disse ela. Não tinha como não obedecer. Vovó acendeu uma vela, Vai ficar tudo bem. Eu adormeci no colo do meu avô, Clarinha no colo de vovó Cândida.

O sol, se nasceu, não deu as caras, dia cinza, como a cor do meu uniforme da escola, que naquele dia ficou no armário. Se arrume, vamos. Mãe e Clarinha estavam prontas,  vô e  vó também. No caminho, vô Álvaro disse que o barulho foi de uma barra de ferro de construção que bateu na linha de energia elétrica, o pai do Mingau foi jogado contra a parede do outro lado da rua.

O Mingau estava sentado ao lado da mãe, vestia um terninho preto, tinha sapatos bem engraxados. Ao vê-lo, tive uma vontade imensa de lhe dar um abraço e dizer que ia ficar tudo bem, que meu pai, do qual eu já não me lembrava, cuidaria do pai dele, mas minha mãe estava perto e tive medo de me repreender. Alguém o ajudou e ele deu um beijo na testa do pai, ainda me lembro do Mingau pedindo a última bênção antes da tampa do caixão fechar.

A casa sem terminar foi vendida, o Mingau nem voltou pra lá, ficou com uma tia, e eu nunca mais vi meu amigo.  Tempos depois, todos precisaram sair de lá, as casas de nossa rua e de outras próximas, foram todas desapropriadas para construção de uma avenida larga, que recebeu o nome do pai do prefeito. Sinto falta do cheiro de pão quente, das calçadas pintadas a cal, do bolinho de chuva da vovó Cândida, do vai-e-vem da cadeira do vovô Álvaro, das brincadeiras bobas da Clarinha, do bolo de fubá cremoso de mamãe. Tudo isso me faz falta, mas saudade mesmo eu sinto é do Mingau, e como eu queria ter lhe dado aquele abraço.

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Sobre o estar sozinho entre tanta gente: A tristeza e solidão das crianças e adolescentes no Brasil.

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Por Emanuely Felipelli e Denis Silva

A alma resiste muito mais facilmente às mais vivas dores do que à tristeza prolongada.(Jean-Jaques Rosseau)

 

A necessidade imediata de respostas que crianças e jovens precisam para resolver suas inquietações cresce a proporções que os adultos não conseguem assimilar. Para a maioria dos pais –adultos cuja geração é fruto de um outro momento histórico-social – a sensação é de que tudo é uma fase e logo vai passar.

Os mais atentos observam à distância. Não querem “sufocar” o filho, afinal na época em que tinha essa idade, ele queria era espaço, logo seu parâmetro tenta a voltar duas ou no máximo três décadas e lembra-se de como era que se sentia.

A sensação é que uma parcela desses jovens está pulando etapas, não porque querem, e sim por não terem outra opção. A rapidez do mundo e a superficialidade das relações geram uma frustração proporcional à expectativa gerada. Eis o problema: temos uma geração cujas expectativas são superlativas.

As questões universais, tão tangíveis nesse momento da vida, acabam por não encontrar respostas. Logo a oposição entre o SER e o TER, que na geração de seus pais era tão clara, recebem um novo companheiro: O APARECER. Pois atrelada à noção de possuir ou ser alguém, hoje, nada adianta sem que os outros saibam. Alguns burlam o processo do APARECER para apenas PARECER. Fotos são alteradas para parecer mais bonito, lugares são marcados para parecer mais “descolado”, pessoas são marcadas para parecerem mais influentes, etc…

A exposição em demasia pode ser tanto um reflexo da necessidade de elevar a autoestima como um pedido velado de socorro. Sinais de tristeza extremada nas redes já tiveram consequências sérias e, em seu ápice, tentativas contra a própria vida. É preciso estarmos atentos a esses sinais. Uma vez que são conhecedores de todos os assuntos –de maneira muitas vezes superficial, mas nos relacionamentos pessoais estão mais vulneráveis.

Criados em bolhas opacas, percebem o mundo, mas não sentem fazer parte dele. Protegidos de dores de todos os tipos, não sabem externar a tristeza que os acomete. Perturbações, comparações, sensação de vazio –mesmo quando envolto de pessoas– levam-no ao choro solitário no quarto e, por fim, aos desabafos nas redes sociais em busca de alguma atenção.

Nosso país está entre aqueles que mais realizam cirurgias plásticas em adolescentes (mais de 100 mil, segundo a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica) e apesar de estar muito longe dos países em que mais ocorrem suicídios (posição 43º) nessa faixa etária é um dos poucos em que o percentual cresceu segundo dados divulgados nos últimos anos. Isso ocorre no memento em que os demais países estão diminuindo essa taxa.

Esses dados mostram uma necessidade de aceitação social, ainda que muitos aleguem ser um fenômeno natural da sociedade contemporânea. A criança e o adolescente, todavia, estão sendo enredadas nessa engrenagem sem maturidade emocional de escolha.

Dentro desse cenário fica fácil imaginar uma criança que passou o dia todo na escola, ao chegar em casa está animada, quer brincar, contar tudo o que lá fez e, por conseguinte escutar os elogios que os pais farão. Mas então, ela tenta falar com seus pais; eles, contudo, estão vidrados no jornal e pedem para que fique quieto, brigam porque ele simplesmente não para de falar. A criança pede…quer brincar, entretanto sua mãe diz que está ocupada demais no momento.

A frustração começa a se formar, é exteriorizada de muitas maneiras, pode ser uma tristeza que os pais julgam sem fundamento, pois como criança, ela tem tudo que  quer e precisa. Quando seus progenitores veem isso se preocupam, é claro, tomam atitudes para resolver o problema. A mamãe traz um presente especial: “pare de chorar filho, está tudo bem. Mamãe vai te dar o que você quiser, só pare de chorar”. Depois de um tempo essa criança cresce, está no começo da adolescência e algo realmente estranho está acontecendo, nada daquilo que ela quer dá certo. Aquele mundo criado para satisfazê-la e poupá-la da dor não existe. A única coisa que ainda permanece é a indiferença a muitos de seus sentimentos os quais agora se acumulam e ela(ele) não sabe o que é aquilo. Afinal quando criança nunca deixaram que se frustrasse, toda vez que perdia algo, recebia uma compensação.

Então percebe que fora da sua bolha (aquela opaca em que foi criada) a compensação não vem. Tenta fazer o que no passado não havia dado certo: conversar com seus pais, diz que há algo errado, não está se sentindo bem, está triste, as coisas estão difíceis. Novamente, eles não entendem, falam que é besteira, já que tem DE TUDO não deveria estar reclamando. Pense nas crianças da África! Diz sua mãe.

Assim, a vida, essa grande junção de frustrações para as quais não foi preparado para sentir e lidar, vai se mostrando em sua versão perversa, não obstante verdadeira.

É isso que ocorre todos os dias com nossas crianças. Elas precisam viver, sentir e sofrer as consequências de viver, e a frustração e a dor que vem com ela são necessárias para estarem preparadas para lidar com a realidade que as espera no futuro. A grande pergunta desse processo insano é: do que adianta os mimarmos tanto quando são crianças se os ignorarmos quando se tornarem adolescentes?

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Sobre o preconceito e outras doenças mentais.

11933470_10203901416170544_7393893318310089054_n          Cristina Partel até alguns dias era uma total desconhecida da grande maioria dos brasileiros, mas com certeza alguém bem relacionada nas esferas sociais e frequentadora das grandes festas da elite paulistana. Ao manifestar seu ódio e preconceito contra uma região específica do país: O nordeste; ganhou, portanto, seus minutos de fama e com isso arrebatou uma série de fãs, bem provável os mesmos que idolatram gente que dissemina ódio pelos meios de comunicação, com um discurso articulado e, às vezes, bem calculado. Como é o caso dos Bolsonaros, Malafaias, Felicianos, Olavos e Reinaldos da vida.

Lembro-me de que na última década do século XIX, um senhor bem formado e, que serviu as forças armadas, detentor de um poder de escrita, comparado depois ao de Machado de Assis, seu nome: Euclides Rodrigues da Cunha que ao escrever para o jornal A Província de São Paulo (que depois viria a ser chamado O Estado de São Paulo) sobre a Guerra de Canudos tratava o povo como um bando de fanáticos religiosos que seguiam cegamente um líder espiritual lunático que tinha a utopia de tornar a recente República novamente em Monarquia. Quando o maior erro dos Canudenses teria sido criar uma sociedade igualitária onde o coletivo estava acima do indivíduo, e dessa forma reduziu-se  a mão de obra dos fazendeiros que durante séculos exploraram o povo sofrido e pobre da região. (Alguma relação com a PEC das domésticas é pura coincidência)

Ao ser enviado como CORRESPONDENTE DE GUERRA, Euclides chegou perto do fim da batalha e mudou substancialmente sua visão sobre a gente que vivia em Belo Monte (nome do vilarejo). Os canudenses, bem como o povo nordestino foi definido por ele, em sua obra máxima, Os Sertões, como: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral[…]É desgracioso, desengonçado, torto. Hércules-Quasímodo[…]”. Ou seja, esse semi-deus desengonçado como o corcunda de Notre Dame mostrou seu valor a Euclides quando esse último viu de perto do que se tratava essa região e esse povo.

O problema das pessoas que pensam como Euclides e como Cristina é a falta de conhecimento. Um pré-conceito burro e, claro, sem base. Pois quando esses se aventuram a conhecer o nordeste (já que nos últimos anos essa gente tem feito suas viagens para fora do país, pois Mykonos ou Ibiza fazem mais sucesso nas rodas de conversa dos amigos do que a Praia do Futuro ou Ponta Negra) o contato é superficial. Um passeio turístico, cuja relação com o povo se dá de maneira comercial, dentro dos mais belos resorts. Há quem nem saia dos complexos hoteleiros já que há de tudo lá dentro.

A diferença entre Euclides(es) e Cristinas é essa: um deles teve a decência de buscar informação ainda que depois de ter falado muita besteira (que me perdoe a comunidade Euclidiana) e não entrar para a história como um idiota, e além disso contar a história dos únicos “perdedores” de uma guerra que são lembrados e cujos “vencedores” ninguém sabe quem são. A outra continuará da sua cobertura olhando o povo de cima, achando-se um ser especial por ter conquistado bem materiais e talvez diga a célebre frase: Não sou preconceituosa, até tenho uma empregada nordestina que é como se fosse da família. Sentindo-se um ser humano de bem por fazer doações a uma ou outra instituição de caridade. Convivendo com sua debilidade mental gerada em um país onde todos SOMOS preconceituosos. Onde rimos de piadas preconceituosas. Onde tudo é motivo para preconceito. Ele, o preconceito, sorrateiro esconde-se em algum lugar escuro do ser, normalmente só sai quando nos sentimos em segurança, quando estamos com aquele grupo que pensa preconceituosamente como nós. Mas, às vezes, ele dá as caras nas redes sociais. Pois em um país onde se lê pouco, escreve-se muito mal e não se sabe interpretar, as pessoas não fazem ideia das idiotices que estão cagando pela boca.

Do que mesmo que eu falava?

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Atire a primeira pedra…

 

Durante muitos séculos o ocidente teve uma maioria absoluta de pessoas pertencentes às religiões judaico-cristãs. Essa vantagem quantitativa, em relações as demais, foi usada em certas épocas de maneira danosa e, até mesmo, belicosa por homens que à frente da igreja católica comandaram um ataque religioso sem igual na história da humanidade: A Inquisição. Com o passar dos anos, essa mesma igreja se redimiu, cometeu outros erros e segue sendo a instituição religiosa mais importante do mundo.

 

Por esse motivo o assunto não é novo. Nem mesmo é apenas um problema atual. Cristãos e mulçumanos lutam há séculos. Começou por causa da “Terra Santa” e continua até hoje, cujos interesses, muitas vezes, vão além dos religiosos. Judeus versus mulçumanos. Mulçumanos versus hindus. Cristãos versus mulçumanos. E assim segue.

 

No Brasil, o crescimento das igrejas protestantes nas últimas décadas tem trazido consigo questões que devem ser encaradas e discutidas pela sociedade antes que absurdos se tornem situações normais. A imagem que parte da mídia cria sobre os denominados “evangélicos” é quase sempre generalizada e caricata.

 

Por outro lado, alguns destes denominados “evangélicos” têm exposto um lado perigoso que nada tem haver com os preceitos que a religião traz em seu nascedouro. Casos de intolerância são noticiados corriqueiramente. Tais atitudes, de meia dúzia de aloprados, geram críticas pesadas por parte de formadores de opinião e pessoas de bom senso.

 

Abaixo um texto publicado no site do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro que trata do assunto.

 

 

 

Combate à Intolerância Religiosa e Defesa do Estado Laico

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A intolerância religiosa representa, certamente, um dos problemas mais delicados em nosso planeta, onde o fanatismo religioso, tão entranhado em milhões de pessoas, conduz umas a realizarem, contra as outras, verdadeiras guerras, em nome, supostamente, de sua religião, como se fosse possível estabelecer, com isso, qual a religião “estaria com a razão”.

A questão é tormentosa e envolve o ser humano em sua mais pura essência, na medida em que são colocadas em jogo sua consciência e crença.

Podemos citar a falta de bom senso e de respeito mínimo à diversidade como fatores que criam e fortalecem as situações de caos e violência vistas em todo canto do mundo, inclusive em nosso país, decorrentes de divergências que levam um ser humano, inconformado com a consciência e a crença esposadas por outro ser humano, a tentar impor-lhe a sua própria consciência e crença, o que se afigura absurdo desmotivado, inútil e ofensor à liberdade fundamental de cada pessoa.

A Constituição da República Federativa do Brasil, em seu art. 5º, inciso VI, preceitua que é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias.

O Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos[1] veda, em seu artigo 2º, primeiro parágrafo, a discriminação por motivo de religião. Mais adiante, no art. 18, preceitua:

“ARTIGO 18

  1. Toda pessoa terá direito a liberdade de pensamento, de consciência e de religião. Esse direito implicará a liberdade de ter ou adotar uma religião ou uma crença de sua escolha e a liberdade de professar sua religião ou crença, individual ou coletivamente, tanto pública como privadamente, por meio do culto, da celebração de ritos, de práticas e do ensino.
  2. Ninguém poderá ser submetido a medidas coercitivas que possam restringir sua liberdade de ter ou de adotar uma religião ou crença de sua escolha.
  3. A liberdade de manifestar a própria religião ou crença estará sujeita apenas a limitações previstas em lei e que se façam necessárias para proteger a segurança, a ordem, a saúde ou a moral públicas ou os direitos e as liberdades das demais pessoas.
  4. Os Estados Partes do presente Pacto comprometem-se a respeitar a liberdade dos países e, quando for o caso, dos tutores legais de assegurar a educação religiosa e moral dos filhos que esteja de acordo com suas próprias convicções.”

Oportuno frisar que a Lei nº 12.288/2010 (Estatuto da Igualdade Racial), buscando proteger cultos religiosos de matriz africana, tidos como aqueles que estão entre os mais discriminados no Brasil, estatui, em seus arts. 24 e 26:

“Art. 24. O direito à liberdade de consciência e de crença e ao livre exercício dos cultos religiosos de matriz africana compreende:

I – a prática de cultos, a celebração de reuniões relacionadas à religiosidade e a fundação e manutenção, por iniciativa privada, de lugares reservados para tais fins;

II – a celebração de festividades e cerimônias de acordo com preceitos das respectivas religiões;

III – a fundação e a manutenção, por iniciativa privada, de instituições beneficentes ligadas às respectivas convicções religiosas;

IV – a produção, a comercialização, a aquisição e o uso de artigos e materiais religiosos adequados aos costumes e às práticas fundadas na respectiva religiosidade, ressalvadas as condutas vedadas por legislação específica;

V – a produção e a divulgação de publicações relacionadas ao exercício e à difusão das religiões de matriz africana;

VI – a coleta de contribuições financeiras de pessoas naturais e jurídicas de natureza privada para a manutenção das atividades religiosas e sociais das respectivas religiões;

VII – o acesso aos órgãos e aos meios de comunicação para divulgação das respectivas religiões;

VIII – a comunicação ao Ministério Público para abertura de ação penal em face de atitudes e práticas de intolerância religiosa nos meios de comunicação e em quaisquer outros locais.

(…)

Art. 26. O poder público adotará as medidas necessárias para o combate à intolerância com as religiões de matrizes africanas e à discriminação de seus seguidores, especialmente com o objetivo de:

I – coibir a utilização dos meios de comunicação social para a difusão de proposições, imagens ou abordagens que exponham pessoa ou grupo ao ódio ou ao desprezo por motivos fundados na religiosidade de matrizes africanas;

II – inventariar, restaurar e proteger os documentos, obras e outros bens de valor artístico e cultural, os monumentos, mananciais, flora e sítios arqueológicos vinculados às religiões de matrizes africanas;

III – assegurar a participação proporcional de representantes das religiões de matrizes africanas, ao lado da representação das demais religiões, em comissões, conselhos, órgãos e outras instâncias de deliberação vinculadas ao poder público.”

Todas as pessoas e suas respectivas religiões merecem proteção e respeito. Mencionamos dispositivos de lei que se referem propriamente a cultos de matriz africana apenas a título de ilustração, para indicar a preocupação do legislador em resguardar as liberdades de cada indivíduo, inclusive com relação a diferenças humanas de consciência e de crença, e em combater a disseminação do ódio entre as pessoas, fundado em intolerância religiosa.

Convém anotar que a Lei nº 11.635/07 instituiu o dia 21 de janeiro como o “Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa”.

Não se pode olvidar, outrossim, que o Brasil deve adotar uma postura neutra no campo religioso, de sorte a não apoiar ou discriminar nenhuma religião.

Com efeito, em consonância com a Constituição da República Federativa do Brasil e com toda a legislação que asseguram a liberdade de crença religiosa às pessoas, além de proteção e respeito às manifestações religiosas, a laicidade do Estado deve ser buscada, afastando a possibilidade de interferência de correntes religiosas em matérias sociais, políticas, culturais, etc.

A laicidade do Estado tem interface com diversos direitos humanos fundamentais, como a liberdade de expressão, a liberdade de crença e de não crença, a igualdade de gênero e os direitos da população LGBT, população esta que sofre forte discriminação em virtude de dogmas religiosos.

Aperfeiçoar a tolerância às diferenças é indispensável no regime democrático. Quando se consegue fazer valer a laicidade do Estado, preservam-se direitos fundamentais.

Reconhecendo que a prática de ato de intolerância religiosa constitui violação ao Estado Democrático de Direito, que não se coaduna com a finalidade de construção de uma sociedade livre, justa e solidária, esta Coordenadoria de Direitos Humanos buscará combater tais atos de intolerância e, também, contribuir para a laicidade do Estado, municiando, sempre que possível, os órgãos de execução do Ministério Público, para que adotem as providências cabíveis, a fim de preservar os direitos fundamentais das pessoas, independentemente de sua crença religiosa.

 

Fonte: http://www.mprj.mp.br/areas-de-atuacao/direitos-humanos/areas-de-atuacao/combate-a-intolerancia-religiosa-e-defesa-do-estado-laico

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A importância do trabalho voluntário

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Com as mudanças ambientais que ocorrem devido ao aquecimento global, situações que colocam parte da população mundial sob riscos diversos aumentam a cada ano. Desde as secas no continente africano, passando pelos alagamentos no Brasil, até as epidemias de ebola e dengue o trabalho voluntário tem-se feito presente, como também fez a diferença na vida de muitas pessoas. Contudo, muito se fala sobre o ganho pessoal com a experiência adquirida, mas pouco se fala dos ganhos profissionais que a atividade voluntária traz. O texto abaixo trata de maneira bem detalhada do assunto.

 

Do site: universia.com.br

Além do desenvolvimento pessoal, é possível obter ganhos para a carreira.

Dedicar-se a algum trabalho voluntário pode ser significativo para sua carreira. As empresas valorizam este aspecto devido à mudança que esta atividade causa em quem a desenvolve e pela experiência adquirida. “Imagine uma pessoa que nunca teve contato com a realidade das favelas, hospitais públicos ou com as dificuldades de doenças graves e deficiências físicas ou mentais. Quando ela passa a conviver com isto, a visão de mundo muda completamente, ela descobre um outro universo”, conta o coordenador do Centro de Estudos do Terceiro Setor da FGV (Fundação Getúlio Vargas) de São Paulo, Luis Carlos Merege. Para ele, questionamentos nascidos desta descoberta provocam alterações também nos hábitos de consumo. “Muitos percebem que com sua renda mensal seria possível sustentar dez famílias”.

Para a consultora de Recursos Humanos do Grupo Foco, empresa especializada em organizar processos seletivos de diversas companhias, Camila Leal Bolzan Diniz, ser voluntário conta pontos a favor do candidato na entrevista de emprego. “Pessoas que prestam esse tipo de serviço, geralmente são pró-ativas, trabalham bem em equipe e tendem a ser mais flexíveis”, explica ela.

Mas Camila diz que embora as empresas prefiram os candidatos com trabalhos voluntários, é preciso ter cuidado ao contar essas experiências na hora da seleção, há muitos oportunistas. “Muitas pessoas que sabem dessa preferência dos empregadores, dizem que são voluntárias, mas ao serem perguntadas sobre o trabalho, não sabem responder, pois consideram uma visita a um orfanato feita há dois anos, por exemplo, um exemplo de voluntariado”, conta Camila.

Benefícios em ajudar alguém

– É fácil encontrar quem precisa de ajuda: as ONGs (Organizações não-governamentais) atuam em várias áreas e têm demanda constante dos mais diversos profissionais. Não é difícil encontrar uma com um perfil que lhe interesse e que esteja fisicamente próxima de você.

– Você é quem define o tempo de dedicação: assim fica fácil conciliar com seus estudos. Mas atenção: é preciso ser responsável e manter o compromisso assumido com a entidade.

– É um bom momento para treinar o que você aprende: escolher uma atividade ligada à sua área é a melhor opção.

– Atuação mais abrangente do que num estágio convencional: na maioria das vezes, as estruturas são pequenas, nas quais quem trabalha realiza um pouco de tudo. A ampla visão de todos os aspectos da atuação profissional é extremamente positiva.

– Possibilidade de desenvolver projetos e colocar idéias em prática: em uma entidade, é muito mais simples colocar em prática novas idéias. Grandes empresas possuem processos decisórios mais longos e nem sempre estão abertas a inovações experimentais.

– Sentir que seu trabalho ajuda quem precisa: a intensidade varia de pessoa para pessoa, mas é fácil imaginar a satisfação de ver que seu trabalho está mudando, diretamente, a realidade de pessoas que precisam.

Veja como e quem ajudar:

 http://www.voluntarios.com.br

http://www.portaldovoluntario.org.br

Ser voluntário exige alguns cuidados. Confira dez dicas

  1. Todos podem ser voluntários:todos podem contribuir a partir da idéia de que o que cada um faz bem, pode fazer bem a alguém. O que conta é a motivação solidária, o desejo de ajudar, o prazer de se sentir útil. Muitos profissionais preferem colaborar em áreas fora de sua competência específica, exatamente para se abrir a novas experiências e vivências. 
  1. Trabalho voluntário é uma via de mão dupla:Voluntariado é experiência espontânea, alegre, prazerosa, gratificante. O voluntário doa energia, tempo e talento mas ganha muitas coisas em troca: contato humano, convivência com pessoas diferentes, oportunidade de viver outras situações, aprender coisas novas, satisfação de se sentir útil. 
  1. Voluntariado é uma relação humana, rica e solidária:Trabalho voluntário não é uma atividade fria, racional e impessoal. É contato humano, oportunidade para se fazer novos amigos, intercâmbio e aprendizado. 
  1. No voluntariado, todos ganham:A ação voluntária visa a ajudar pessoas em dificuldade, resolver problemas sociais, melhorar a qualidade de vida da comunidade. Seu sentido é eminentemente positivo: ao mobilizar energias, recursos e competências em prol de ações de interesse coletivo, o voluntariado reforça a solidariedade social e contribui para a construção de uma sociedade mais justa e humana.
  1. Voluntariado é uma ação duradoura e com qualidade:A função do voluntariado não é tapar buracos nem compensar carências. Uma sociedade participante e responsável, capaz de agir por si mesma, não espera tudo do Estado, mas tampouco abre mão de cobrar do governo aquilo que só ele pode fazer.
  1. A ação voluntária é tão variada quanto as necessidades da comunidade:Tradicionalmente, no Brasil, o voluntariado se concentrou na área de saúde e no atendimento a pessoas carentes. O reconhecimento da urgência de ações nessas áreas não é contraditório com a valorização de novas possibilidades de voluntariado nas áreas de educação, atividades esportivas e culturais, proteção do meio ambiente etc. Cada necessidade social é uma oportunidade de ação voluntária.
  1. Voluntariado é ação:O voluntário é um pessoa criativa, decidida, solidária. No trabalho voluntário, não há cartórios nem monopólios. Não há hierarquia de prioridades. Não é preciso pedir licença a alguém, antes de começar a agir. Quem quer, vai e faz.
  1. Cada um é voluntário a seu modo:Alguns são capazes individualmente de identificar um problema, arregaçar as mangas e agir. Outros preferem atuar em grupo. Grupos de vizinhos, de amigos, de estudantes ou aposentados, de colegas de trabalho que se mobilizam para ajudar pessoas e comunidades. Por vezes, é uma instituição inteira que se mobiliza, seja ela um clube, uma igreja, uma entidade beneficente ou uma empresa.
  1. Voluntariado é escolha:Cada um contribui, na medida de suas possibilidades, com aquilo que sabe e quer fazer. Uns têm mais tempo livre, outros só dispõem de algumas poucas horas por semana. Alguns sabem exatamente onde ou com quem querem trabalhar. Outros estão prontos a ajudar no que for preciso, onde a necessidade é mais urgente. Cada compromisso assumido, no entanto, é para ser cumprido.
  1. Voluntariado é um fenômeno mundial:A escolha do ano de 2001, pelas Nações Unidas como Ano Internacional do Voluntariado, representa o reconhecimento internacional do voluntariado como fenômeno contemporâneo e global. Esta celebração é uma oportunidade a ser aproveitada para consolidar o voluntariado no Brasil como componente essencial de uma sociedade cada vez mais democrática e participativa.

 

* Artigo publicado no “Guia do Voluntariado”, da Associação Tertio Millennio, de autoria de Miguel Darcy de Oliveira, Membro do Comitê Executivo do Conselho da Comunidade Solidária e Coordenador do Programa Voluntários do Conselho da Comunidade Solidária

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Mobilidade Urbana: Não tá tranquilo, não tá favorável!

JKcomaFariaLima
Por Denis  Silva.

Segundo estudos arqueológicos, os primeiros agrupamentos de pessoas tiveram seu início próximo a áreas férteis, já que essas terras estavam também próximas a alguns rios. O intuito de muitas das grandes civilizações era também criar seus territórios de forma que a água, elemento vital para o cultivo; fosse, portanto, abundante.  Assim, as grandes civilizações se valeram de rios como Tigres, Eufrates, Nilo, Douro, Minho, Tâmisa, Rio Paraíba do Sul entre tantos outros que culminaram no desenvolvimento de grandes cidades que permanecem até nossos dias. Contudo, em muitos lugares, devido à falta de um planejamento inicial ou um projeto de reurbanização posterior, apresenta-se  hoje uma série de problemas responsáveis pela falta de mobilidade urbana.

O Brasil, país que teve sua colonização feita por um país católico, teve o desenvolvimento de muitas de suas cidades a partir da construção de uma igreja, o caso mais emblemático é a cidade de São Paulo e seu início a partir do pátio do Colégio. Independente disso, as pequenas vilas distantes quilômetros umas das outras tinham suas rotas comerciais feitas por animais ou veículos de tração animal (carroças e charretes), muitos desses caminhos, abertos a facão e machado e que tinham seu trajeto feito para a necessidade da época, do veículo e determinado pela topografia, hoje dão lugar a ruas e avenidas onde carros se amontoam. Para quem gosta de História segue um link sobre um antigo caminho que ligava Guarulhos a São Paulo e vice-versa, veja como o trajeto se transformou, mas continua lá. (http://www.saopauloantiga.com.br/avenida-conceicao/ )

As grandes e médias cidades brasileiras, ao longo do século passado, direcionaram seus recursos de obras para o transporte individual. Construir grandes avenidas e complexos viários com viadutos era a meta de dez entre dez prefeitos. Muitos deles exibiam orgulhos seus projetos e convocavam a mídia para a inauguração dessas obras. Por isso, durante as décadas de 1980 e 1990 foram inúmeros os casos de desapropriações feitas para a construção de centenas de quilômetros de asfalto voltados ao trânsito de veículos particulares. Em sua maioria funcionavam como uma enorme colcha de retalhos com emendas aqui e acolá as quais, na maioria das vezes, ligavam o nada a lugar nenhum. Basta ver os casos das Avenidas Água Espraiada (atual Dr. Roberto Marinho) e Jacú- Pêssego, elas só foram ligadas aos seus destinos devidos muitos anos depois (observação: a Dr. Roberto Marinho ainda não chegou a Rodovia dos Imigrantes como deveria). E nem vamos entrar em detalhes sobre o famoso Elevado Costa e Silva (conhecido como Minhocão) que transformou o bairro por onde passa em uma sucursal de Gothan City, quem duvida passe por lá depois que escurecer. No Rio de Janeiro caso semelhante (guardadas as devidas proporções) ocorreu com a criação das Linhas Amarela e Vermelha, hoje tão famosas nos noticiários policiais televisivos.

Foi apenas nos anos 2000 que a situação começou a mudar. Em São Paulo a gestão da época acabou com um grande problema da cidade: o transporte coletivo clandestino. Projetos de corredores de ônibus que há décadas estavam no papel ou com canteiros de obras abandonados foram retomados. Há no momento uma boa discussão sobre o uso da bicicleta em cidades paulistas, principalmente em São Paulo que tem criado ciclofaixas em várias regiões da cidade. Tal fato tem gerado controvérsias, uma vez que quebra um paradigma cultural: o uso da bicicleta como meio de transporte e não de lazer.

Na esfera estadual, algumas movimentações, ainda que muito tímidas, para novas estações de metrô também ocorreram. Mas foi recentemente, após o país ser escolhido para eventos esportivos de grandes proporções,  que o tema de mobilidade voltou aos noticiários e discussões de planejamento urbano.

O primeiro evento se foi sem que obras de real impacto na mobilidade urbana ficassem prontas. As estações que ligariam várias áreas da cidade de São Paulo ao metrô são esqueletos abandonados. No Rio algumas estão ficando prontas apenas agora, poucos meses antes das Olimpíadas. Em outras capitais como Salvador a quantidade é pífia não chega a duas dezenas de quilometro.

Percebe-se que o legado ruim de quase um século pensando apenas no automóvel, não será resolvido em uma década por causa de dois eventos esportivos de curta duração. O foco nem deveria ser esse. Vale lembrar que na maioria dos casos os países ou mesmo as cidades sedes já possuíam grande malha de transporte coletivo e apenas reformas necessárias foram feitas para atender tais eventos. Aqui se procedeu ao contrário e viu-se o que todos supunham: não daria certo e não deu. Os gastos foram altos para o retorno que a população teve. Dessa forma, boa parte da população em várias cidades é refém de seu próprio carro, enquanto a outra parte segue espremida em vagões lotados, em ônibus lentos devido ao trânsito caótico. Todos aguardando poder exercer seu direito constitucional de ir e vir, mas está difícil!

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